Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Este é um texto dramático, escrito com saudade e mágoa.
Aviso que pode ser um pouco chocante para pessoas sensíveis porque o tema principal é a morte.
Espero que gostem.



Never Can Say Goodbye



Ana percorreu apressadamente os corredores do hospital desconhecido em busca da sua vida, prestes a perder-se para sempre. Aparentando uma força que não tinha, enfrentava as enfermeiras e os seus olhares desconfiados quando a viam passar quase a correr. Uma coragem que não sabia que possuía tomava conta dela e impedia-a de chorar quando as lágrimas faziam força para sair, não a deixava parar quando as pernas lhe falhavam e cerrava-lhe os punhos quando as mãos tremiam.
Olhava para todo o lado desesperadamente à procura de um sinal, uma cara familiar. Não ia sair dali sem o ver ou pelo menos sem fazer o possível e o impossível para que esta odisseia não fosse em vão.
Estava de férias com os seus pais quando soube da notícia. Apenas teve tempo de deixar um bilhete no quarto de hotel antes de sair a correr, sem sequer pensar nas consequências dos seus actos.
Era o seu ídolo, a pessoa que significava mais do que tudo para ela, a pessoa que amava mais do que a sua própria existência. Através da sua música milagrosa, ele tinha-a salvo de morrer prematuramente, tinha-lhe mostrado que ela não estava sozinha e tinha devolvido a sua alegria de viver, há muito perdida. Nada nem ninguém no mundo poderia alguma vez ocupar o lugar que ele ocupava, pois era ele o seu salvador. Era uma parte dela que ninguém podia substituir.


[FLASHBACK]

Sou uma inútil” pensou Ana enquanto olhava para baixo, onde os carros passavam apressadamente na rua e as pessoas pareciam bonecos. “Aposto que se desaparecer, ninguém dá pela minha falta… Os meus pais estão demasiado ocupados a discutir um com o outro para notar a minha ausência…
Uma rajada de vento fez os seus cabelos castanhos ondular no ar. A música continuava a tocar nos seus ouvidos, os phones ligados ao telemóvel no bolso dela.
Hoje vou acabar com tudo. Não ando aqui a fazer nada, sou um desperdício de espaço.” Pensou ela, enquanto uma lágrima mortiça descia devagar pelo seu rosto pálido.
Levantou-se, ficando de pé no parapeito do terraço do prédio onde vivia. Lá em baixo, as pessoas continuavam a passar, alheias ao sofrimento e dor que eram quase palpáveis no cimo do edifício.
Subitamente, a música na rádio mudou. Não conhecia esta que passava agora, mas reconheceu a voz do cantor.
You are not alone,
I am here with you.
Though you’re far away
I am here to stay.
For you are not alone.

Era ele outra vez… Aquele que aparecia sempre que ela pensava em terminar com o seu sofrimento… As músicas dele, inexplicavelmente, estavam sempre lá naqueles momentos, quer fosse no carro do lado, na casa de um vizinho dela, na rádio…
Inconscientemente, desceu do parapeito e só reparou que se estava a mover quando bateu com as costas na parede, o local mais afastado possível da borda do prédio.

[FLASHBACK]



Parou subitamente quando viu três crianças abraçadas a chorar. Alguns segundos bastaram para as reconhecer, tal como reconheceu as pessoas que as rodeavam. Aproximou-se lentamente, sentindo o coração bater mais forte que nunca, como se tivesse acabado de fazer um esforço sobre-humano para correr a maratona. Ao ver a reacção da família dele, percebeu de imediato o que se passava. Começou a ser invadida por um medo colossal, uma raiva descontrolada, um cansaço cruel. As suas pernas cederam como se não conseguissem suportar o peso dela e caiu de joelhos no chão, cobrindo a cara com as mãos tentando em vão esconder o rosto marcado pelas lágrimas, que tinham finalmente vencido. Chorou, berrou em silêncio, gritou para si a injustiça que Deus tinha acabado de cometer.
A franqueza das suas lágrimas e o desespero do seu soluçar chamaram a atenção de Janet, que se dirigiu a ela e se baixou ao seu lado. Pôs-lhe a mão nas costas e por entre as suas próprias lágrimas perguntou-lhe:
- Estás bem?
Ana levantou o olhar revoltado e enxugou algumas lágrimas com a palma das mãos.
- Deixem-me vê-lo, por favor – implorou ela, olhando nos olhos de Janet – Eu preciso de vê-lo.
Janet nada disse. Fixaram-se durante alguns intensos segundos, durante os quais Janet se questionava sobre quem seria aquela rapariga e se seria seguro deixá-la entrar no quarto do irmão. Procurava nos olhos dela algum traço de maldade ou maus sentimentos, mas não encontrou nada além de amor na sua forma mais pura. Ainda em silêncio, levantou-se e dirigiu-se ao resto da família. Enquanto conferenciavam baixinho, Ana fez um esforço para se pôr de pé enquanto limpava as lágrimas que se mantinham teimosamente nos seus olhos. Após o que pareceu uma eternidade, Janet fez-lhe sinal para se aproximar.
- Sê rápida – Disse-lhe, enquanto lhe apontava a porta.
O olhar de Ana passou brevemente por cada um dos membros da família Jackson ali presentes antes de focar a sua atenção na porta que estava prestes a transpor.
Respirou fundo, limpou a cara às mangas da camisa que tinha vestida e adoptou uma postura forte e corajosa para enfrentar o seu pior pesadelo. Dirigiu-se à porta indicada por Janet com passos decididos, que rapidamente se tornaram mais lentos e receosos. O olhar duro na sua face durou apenas alguns segundos e deu lugar a uma nova invasão de sentimentos ao entrar no quarto.
Há muito tempo que sonhava conhecê-lo e tentava imaginar como seria estar na sua presença. Agora que esse sonho se estava a cumprir, desejava ardentemente e com todas as suas forças que aquilo não fosse real.
Ele estava ali deitado, com as mãos sobre o peito e de olhos fechados. Estava tão sereno que podia estar a dormir. A janela mais próxima da cama dele deixava entrar no quarto uma luz dourada, que parecia ser atraída para o corpo ali deitado e embelezava cada um dos traços finos da sua face pálida, fazia brilhar os caracóis pretos espalhados pela almofada branca e quando os ramos do carvalho plantado lá fora passavam brevemente pela janela, empurrados pelo vento, as sombras criavam a ilusão que o seu peito se movia para cima e para baixo, numa respiração quase regular. Uma pomba branca estava pousada no parapeito e espreitava para dentro. Quando Ana transpôs por completo a porta, uma segunda pomba branca aterrou na parte de fora da janela, junto à primeira.
Ana ficou ali a olhar para ele durante muito tempo, ou então tempo nenhum, enquanto uma única lágrima transparente descia pela sua face. Inconscientemente levantou a mão direita para a limpar, mas acabou por não o fazer. Ele sempre tinha sido o seu confidente, mesmo que não o soubesse. Era a ele que ela contava todos os seus segredos, tudo o que lhe ia no coração e na mente, mesmo que ele não a ouvisse. Ana falava com ele como quem fala com Deus. Não valia a pena esconder o que sentia agora que estava ali, pois nunca o tinha feito antes.


[FLASHBACK]

- Eu sei que se me ouvissem iam dizer que estou senil… A falar sozinha, vê lá! Mas sabes… Eu não tenho mais ninguém a quem contar tudo isto… E, além disso, tu transmites-me confiança e segurança. Sei que me proteges, mesmo que não o faças conscientemente. Sei que posso contar-te tudo o que se passa dentro de mim… Se me pudesses realmente ouvir, sei que me irias compreender.
Com o seu dedo indicador, Ana fazia desenhos abstractos na foto colada na parede do seu quarto, ao lado da sua cama. O belo sorriso de Michael gravado para sempre naquela foto era a primeira coisa que ela via quando acordava e a última antes de adormecer.
- Será que sou a única pessoa que faz isto? Quer dizer, eu sei que os católicos têm a mania de falar com Deus e assim… Mas eu não acredito lá muito em Deus… TU és o meu Deus. Salvaste-me a vida… Se algum dia te acontecer alguma coisa…
Imagens independentes da sua vontade começaram a formar-se na sua mente, imagens que ela não queria ver. Não queria sequer pensar no que iria acontecer no dia em que Michael partisse deste mundo.
Abanou a cabeça com violência para tentar sacudir estes maus pensamentos e piscou várias vezes os olhos para evitar que as lágrimas que se tinham formado caíssem. Deu um beijo na foto antes de sair do quarto.

[FLASHBACK]


Aproximou-se cautelosamente da cama e sentou-se na cadeira de plástico ao lado dela.
- Michael… - disse ela com a voz quebrada pelas lágrimas que reapareciam em força – Não é justo…
Tomou as mãos dele nas suas. Seria imaginação sua ou… As mãos ainda estavam quentes? Acariciou-as ao de leve, sem conseguir pensar em nada de concreto. A sua mente vagueava pelo passado, pelos momentos em que aquela pessoa a tinha salvado da morte. E agora… Ela não o tinha conseguido salvar a ele! Ela sentia que tinha falhado, apesar de saber que não havia nada que pudesse ter feito.
- Estou aqui contigo… Não te vou deixar sozinho… - murmurou ela, apertando carinhosamente as mãos dele.
Respirou fundo e pensou em Deus. Será que valia a pena tentar? Ela não acreditava. Mas o Michael sim.
Não tenho nada a perder… Não há nada que me prenda aqui.
- Deus… Eu não tenho muito jeito para isto, não estou habituada a rezar. Eu sei que tu e eu não temos uma relação próxima… Ou melhor, não temos sequer qualquer tipo de relação. Mas o Michael acreditava em ti e é por ele que estou a fazer isto.
Respirou fundo outra vez e olhou para o rosto pacífico de Michael. Um pequeno sorriso adivinhava-se nos seus lábios, se por estar finalmente em paz ou por não estar sozinho, ninguém podia saber.
- Nunca te pedi nada, por isso, este vai ser o meu único pedido. Por tudo o que há de mais sagrado no mundo, leva-me também. Eu não aguento viver sem ele, não consigo viver sabendo que ele não está no outro lado do planeta. Por favor, deixa-me ir com ele… Deixa-me ficar com ele.
Ana ajoelhou-se ao lado da cama e deitou a cabeça em cima dos braços, agora segurando apenas uma das mãos dele. As lágrimas que corriam agora não eram de tristeza. Era uma dor psicológica tão intensa que podia mesmo ser dor física; era o desespero de querer seguir Michael para onde ele tinha ido e não poder; era o medo de ter que acordar todos os dias sabendo que ele não estava a dormir como de costume. Era a vontade de acabar com tanto sofrimento e era a falta de forças para o fazer.
- Por favor… Leva-me também… - murmurou novamente.
A muito custo, levantou-se. Olhou para ele durante o que pareceram anos, deu-lhe um beijo na testa e voltou a ajoelhar-se na mesma posição. Fechou os olhos enquanto sentiu o seu corpo acalmar.
As lágrimas cessaram. A respiração tornou-se progressivamente mais lenta. Sentiu-se leve, como se estivesse prestes a adormecer.

As duas pombas brancas olharam uma para a outra e partiram ao mesmo tempo, num restolhar de penas que rapidamente deu lugar ao silêncio.

A família dele, que assistia a tudo isto do lado de fora da porta, estava sem palavras perante tal demonstração de amor. Tinha pedido autorização para entrar em vez de correr lá para dentro, não se tinha agarrado a ele histericamente, não o tinha beijado como se o mundo fosse acabar, não tinha gritado a plenos pulmões. As lágrimas e a dor dela, eram as lágrimas e a dor deles também.
Os minutos passavam, contando o tempo que faltava para o fim da vida de cada um deles enquanto testemunhavam o fim de uma outra vida.
Acharam que ela estava há demasiado tempo lá dentro e Janet entrou para a convidar a retirar-se. Afinal, apesar de tudo, este era um momento que devia ser exclusivo da família. O Michael também era pai, irmão e filho, não só um ídolo.
Pôs a mão no ombro de Ana, mas ela não reagiu. Abanou-a ligeiramente e ela começou a escorregar lentamente pelo chão. Janet pediu ajuda aos outros, que chamaram um médico que passava por ali.
Ele examinou-a brevemente, colocou dois dedos no pescoço dela e abanou a cabeça de um lado para o outro.
- Não tem pulsação… - disse ele, parecendo surpreendido por ouvir aquelas palavras sair da boca dele.
Tentaram reanimá-la, mas rapidamente desistiram ao ver que não havia esperança.
Deus tinha acedido ao pedido dela.



FIM


By Moon às 12:17 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Anónimo a 25 de Junho de 2010 às 17:30
<3
eu ainda ca estou para t animar :)
por isso espero que tenhas um boraquinho no teu coraçao para mim :D
amo-t e anima-t...
(L)


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